Economia da Atenção | Por Herbert Simon
Em um tempo em que quase tudo se converte em conteúdo, Herbert A. Simon segue atual por uma razão simples: ele foi direto ao ponto antes do termo “economia da atenção” virar moda. Para Simon, viver em um “mundo rico em informação” não significa viver melhor. Significa, antes, lidar com um novo tipo de escassez.
A metáfora que ele usa é tão cotidiana quanto precisa. Dois coelhos viram muitos coelhos, e de repente o mundo fica “rico” neles. Mas essa riqueza produz uma pobreza em outro lugar: falta alface. A abundância de um recurso transforma outro em gargalo, e isso cria um problema de alocação.
O argumento central é que informação, quando se multiplica, consome algo limitado: a atenção dos destinatários. Assim, a superabundância informacional não é neutra. Ela cria uma pobreza de atenção e exige decisões: o que merece ser visto, lido, ouvido — e o que será descartado.
Nesse ponto, Simon desloca a conversa do volume para o custo. Não basta medir quanto custa produzir e distribuir informação. É preciso calcular quanto custa recebê-la. Em um cenário saturado, o custo relevante recai sobre quem lê, assiste e processa.
E como medir esse recurso escasso? Simon critica a ideia de usar “bits” como medida de atenção, porque a capacidade em bits depende da codificação. O mesmo conteúdo pode exigir mais ou menos processamento, conforme a forma. Ou seja, não é uma unidade estável para medir escassez.
A proposta dele é mais pragmática: tempo. Quanto tempo uma mensagem toma do destinatário? A atenção, nesse sentido, pode ser estimada pela duração do engajamento necessário para compreender e decidir. É a métrica mais simples — e a mais difícil de expandir.
Simon também lembra que seres humanos são “dispositivos seriais”: só conseguem prestar atenção a uma coisa por vez. Mesmo quando parece que estamos fazendo cem coisas, estamos alternando rapidamente entre tarefas, como sistemas de “compartilhamento de tempo”. A sensação de multitarefa é, muitas vezes, uma ilusão eficiente.
A consequência disso para organizações é direta. Empresas, governos e instituições também operam como sistemas de atenção: reuniões, relatórios, e-mails, dashboards e decisões competem entre si. Quando tudo é prioridade, a atenção se fragmenta — e o sistema perde capacidade de agir com precisão.
Há, portanto, uma dimensão estratégica que costuma ser subestimada: conservar atenção é administrar desempenho. Em um mundo saturado, o excesso de informação pode ser tão caro quanto a falta dela, porque ele drena o recurso que sustenta qualquer coordenação: foco, tempo e clareza.
No fim, Simon deixa um recado que atravessa marketing, mídia e vida cotidiana: a prosperidade informacional não resolve o problema do conhecimento. Ela o reorganiza. E o novo centro da disputa não é mais quem produz mais informação, mas quem consegue projetar mensagens, sistemas e rotinas que respeitem — e aloque — a atenção com inteligência.
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